4 Evidências Filosóficas de Que Deus Existe - Atualidades | Intérprete Nefita

4 Evidências Filosóficas de Que Deus Existe

Analisamos nesse artigo a estrutura de quatro argumentos que indicam que sim, Deus existe.


Por Luiz Botelho 13 de Maio de 2018
4 Evidências Filosóficas de Que Deus Existe

O debate sobre a existência de um ser superior tem por milhares de anos sido um assunto fascinante e controverso no campo científico e principalmente filosófico. Membros de diferentes religiões atribuem suas crenças em um Deus aos mais diferentes fatores, sendo alguns deles de natureza empírica, enquanto outros de natureza filosófica. Analisemos 4 evidências sólidas de que sim, Deus existe.

1. O Argumento Cosmológico Kalam

Um dos argumentos teológicos mais comuns utilizados na defesa da existência de um criador é o denominado Argumento Cosmológico Kalam.[1] O argumento analisa a existência do universo, e é formado por duas premissas que se  validadas, nos conduzirá para uma conclusão forçosamente verdadeira. Analisemos a estrutura do argumento:

Premissa 1: Tudo que começa a existir tem uma causa.
Premissa 2: O Universo começou a existir.
Conclusão: Portanto, o Universo teve uma causa.

Embora a primeira vista a sequência lógica pareça um tanto óbvia, o ponto central consiste na ideia de que se o universo teve um início, ele forçosamente precisa ter uma causa. Caso o universo possua uma causa, a hipótese ou explicação plausível é que uma mente inteligente (ou Deus) é essa causa. Evidências empíricas e o estudo científico tem continuamente validado ambas as premissas, o que consequentemente fortalece a conclusão, embora esteja aberto ao debate de um ponto de vista agnóstico, que causa seria essa.

Em outras palavras, podemos validar tanto por experiência e pelo método científico a veracidade da primeira premissa ao constatar que nada  no universo observável possui um início sem haver um agente (inteligente ou não) como a causa de tal existência. Dessa forma, a ideia de que o universo simplesmente surgiu em uma explosão sem uma causa não possui realmente respaldo lógico. 

A segunda premissa, por sua vez, tem sido validada por conceitos fundamentais da física como a segunda lei da termodinâmica e o fato de o universo estar em expansão.[2] A segunda lei da termodinâmica em poucas palavras afirma que o universo gradualmente está em um processo contínuo de perda de energia utilizável, processo esse normalmente chamado de entropia. O ponto em questão de ambos princípios consiste na ideia de que se o universo está continuamente perdendo energia e se tornando mais "desorganizado," ele não mais teria energia caso houvesse existido infinitamente no passado. O fato de o universo estar expandindo igualmente sugere que em determinado momento do passado ele esteve todo no mesmo lugar, o que novamente sugere a ideia de um início. 

Dessa forma, a menos que desconstruamos tais premissas que no momento são tão validadas pela ciência, não se pode invalidar a conclusão de que o universo possui uma causa, e que um criador (pessoal ou não) não sujeito à tempo, espaço e matéria talvez seja uma explicação razoável, ou talvez a melhor explicação para esse fato.

2. O Argumento Moral

A existência de valores morais objetivos na humanidade permanece como outra sólida evidência de que Deus existe. Será que uma pessoa pode ser moralmente boa sem acreditar em Deus? A resposta é obviamente sim. O coração da questão, entretanto, não é tão óbvia assim. O ponto a ser questionado neste caso não é se alguém pode ser bom sem acreditar em Deus, mas se em primeiro lugar bem e mal existem sem a existência de Deus, ou um ponto de referência. Em outras palavras, sem a existência de um ser superior que determine o que é bom e o que é mal, não há uma forma objetiva de declarar que algo é bom ou mal. 

Pense, por exemplo, em um ecossistema da natureza. Quando animais matam outros animais, seja para alimentação, conquistar ou defender território ou qualquer outro motivo, não taxamos predadores de “mal” por seus atos. A razão é simplesmente porque animais não vivem sob um código de conduta moral. Não possuem uma percepção objetiva do que é certo ou errado e, por essa razão, o conceito de bem e mal simplesmente não existe no reino animal. Na visão ateísta, a raça humana é, apesar de mais desenvolvida, simplesmente mais uma de milhões de raças a povoarem o planeta. Se a raça humana é meramente mais uma raça do mundo animal, a inexistência de valores morais objetivos igualmente se aplicaria a nós, assim como se aplica aos demais animais. Nesse cenário, matar outro ser humano não seria necessariamente mal e em nada se diferenciaria de um animal que mata outro animal, não importando o motivo. Bem e mal se tornaria algo subjetivo, e meramente uma criação social humana que pode mudar em diferentes contextos ou épocas. Consegue ver o problema dessa visão?

A história humana demonstra de maneira clara que de fato bem e mal em algumas circunstâncias são de natureza cultural e subjetiva, ou seja, se aplicam unicamente a um determinado sujeito, e não ao objeto ou ação em si. Em outras palavras, algo visto como certo por um determinado grupo em uma época pode ser visto como errado e anormal para outro em outra época. Valores morais objetivos, entretanto, são valores ou ações que são vistas como moralmente certos ou errados independente de qualquer contexto cultural. Assassinar um inocente e abusar de uma criança, por exemplo, são atos moralmente errados, independente de contexto cultural ou social.

Dessa forma, o argumento funciona da seguinte maneira:

Premissa 1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem. 
Premissa 2. Valores morais objetivos existem.
Conclusão: Portanto, Deus existe.[3]

Se não há um Deus, realmente não há um ponto de referência que determine o que é bem ou mal. Tais conceitos neste caso seriam relativos. Sem um Deus que determinou e colocou na raça humana a percepção de certo e errado, nada é realmente bom ou mal e somos neste caso apenas produto do processo evolutivo com valores inconstantes. Entretanto, valores morais objetivos são reais. Portanto, Deus existe.

3. O Argumento da Contingência

O argumento da contingência relembra aspectos do argumento cosmológico Kalam, mas possui um foco voltado para a existência de algo. Como proposto pelo filósofo e matemático alemão Gottfried Leibneiz, “a primeira pergunta que deve ser feita é, por que algo existe, ao invés de nada?”. Exploremos a estrutura do argumento.

Premissa 1. Tudo o que existe, possui uma explicação para sua existência.
Premissa 2. Se o universo possui uma explicação para sua existência, esta explicação é Deus.
Premissa 3. O universo existe.
Conclusão: Portanto, a explicação para a existência do universo é Deus. 

A premissa 1 é evidente como descrita no argumento kalam. Se algo existe, possui uma causa ou explicação. A analogia do relojoeiro, proposta pelo teólogo William Paley ilustra este princípio.[5]

Imagine que andando em uma floresta você encontre no chão um relógio de pulso. Seria absurdo presumir que o relógio sempre esteve lá e que não há uma explicação para o porquê dele estar lá. Nesta analogia, a ideia de encontrar algo complexo como um relógio sugere a existência de um relojoeiro e torna ilógico a afirmação de que não há uma explicação para o relógio estar lá, como ateístas constantemente atribuem ao universo. Embora tal argumento utilize a existência de um objeto complexo (como o universo) para presumir a existência de um relojoeiro (ou causa) ele é igualmente válido caso o relógio seja substituído por qualquer coisa, seja ela complexa ou não.

Para que a lógica deste argumento seja clara é preciso primeiramente entender que algumas coisas existem “necessariamente” e outras “contingentemente”. William Paley diferenciou que algo que existe “por necessidade” independe de uma causa, pois sua existência é baseada em sua própria natureza e que simplesmente não é possível que tal coisa não exista. Matemáticos ilustram tal conceito com a utilização de objetos abstratos, como números ou equações matemáticas, que existem independente de qualquer causa e devido a sua própria natureza. Algo que existe “contingentemente”, por outro lado, são coisas que não obrigatoriamente precisam existir, mas existem devido a uma causa. Por exemplo, o avião existe contingentemente porque foi criado por Santos Dumont e outros de sua época. Aviões não necessariamente precisam existir. Existem devido a uma explicação anterior, no caso o desejo do homem de voar.

Da mesma forma, o universo existe, mas não “necessariamente” precisa existir. Na visão científica, o Big Bang aconteceu, mas poderia não ter acontecido. Na visão religiosa, Deus criou o universo, mas poderia não ter criado. A questão proposta por Paley então sugere, “se o universo não necessariamente precisa existir, por que então ele existe?”. A explicação mais plausível nesse caso é a de que um universo de existência contingente existe por causa de um ser ou razão cuja existência independe de uma causa (como números). Novamente, sendo o universo a junção de toda a matéria e energia existente, a explicação para a existência do universo precisa ser algo ou alguém que está além do universo, o que poderia ser chamado de qualquer coisa, mas teístas chamam de “Deus.”

4. Experiências Espirituais

Experiências espirituais, diferentemente dos argumentos filosóficos apresentados anteriormente, recaem sobre um tipo diferente de evidência, denominada evidência empírica ou evidência proveniente de experiência. Tal forma de evidência precisa ser analisada de maneira objetiva e com extrema cautela, pois frequentemente experiências são subjetivas e nossa percepção da realidade pode ser ofuscada pela falta de compreensão do universo físico ou simplesmente por uma má utilização de lógica e razão.

Experiências espirituais possuem como quase todo argumento, pontos sólidos e também algumas fragilidades. Para Joseph Smith após retornar do Bosque Sagrado e ter interagido com o Pai e o Filho ou Paulo no caminho para Damasco, suas experiências espirituais são não somente evidências sólidas da existência de um Deus, mas de QUAL Deus realmente existe. Isso não necessariamente significa que uma visão seja uma evidência incontestável da veracidade de algo. Pessoas frequentemente por razões variadas vivenciam alucinações, tem sonhos vívidos ou simplesmente interpretam como espiritual coisas que podem ser explicadas naturalmente pelo universo físico.

Outro ponto a se analisar sobre evidências espirituais é que elas em primeira pessoa (quando acontece com você) são objetivas, mas quando acontece com outros são subjetivas. Bilhões de pessoas no mundo professam ter tido experiências espirituais que justificam suas escolhas em uma determinada crença e ainda assim, tais crenças variam drasticamente umas das outras em pontos essenciais. Se todas essas experiências espirituais fossem objetivas e reais, elas em tese apontariam para uma única direção, o que certamente não é o caso. A cautela necessária está no desafio de interpretar experiências com uma dosagem certa de espiritualidade e razão. 

Gálatas 5 nos ensina que os frutos do espírito podem ser descritos como uma série de bons sentimentos como amor, paciência, paz, longanimidade, benignidade, etc ao passo que Jeremias 17:9 declara que o “coração é enganoso mais do que todas as coisas, e perverso”. Entender o equilíbrio de tais versos é a diferença crucial entre interpretar uma experiência de maneira coerente. O fato de X conduzir a Y não necessariamente significa que Y conduz a X. Da mesma forma, o fato de uma experiência espiritual positiva e real obrigatoriamente trazer “paz, amor, longanimidade e benignidade” não necessariamente significa que sentir paz, amor, longanimidade e benignidade sejam frutos de uma experiência espiritual.

Ainda assim, quando analisadas de maneira coerente e prudente, experiências podem garantir ao protagonista evidência sólida da existência de um Deus, embora subjetiva àqueles que acreditam em seus testemunhos.

Conclusão

Apesar desta reflexão ser capaz de demonstrar que há razões plausíveis e lógicas para se crer em um Criador, talvez o ponto mais importante da análise seja avaliar se estamos utilizando os argumentos corretos para justificar porque cremos no que cremos. 

Em uma religião que professa trazer o mesmo Evangelho iniciado por Cristo, é essencial que seus membros sejam capazes defender suas crenças não somente com vagas sentenças iniciadas com um subjetivo “eu sei”, mas com um entendimento sólido de como suas razões objetivamente explicam suas crenças. Com um mundo cada vez mais secular e naturalista, o futuro da religião é incerto. Conhecer os argumentos que coerentemente apoiam a existência de um Deus é não apenas uma questão de intelectualidade, mas de sobrevivência.

Referências:

[1] Reichenbach, Bruce, "Cosmological Argument", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2013 Edition), Edward N. Zalta (ed.)
[2] Cain, Fraser. Will the Universe Run Out of Energy? Universe Today. Dec 2015.
[3] Evans, C. Stephen. (2014). Moral Arguments for the Existence of God. The Stanford Encyclopedia of Philosophy.
[4] Gottfried Leibneiz, (1646-1716) 
[5]  William Paley, Natural Theology (1802)



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