5 Doutrinas de Corredor Que Precisam Acabar - Mitos | Intérprete Nefita

5 Doutrinas de Corredor Que Precisam Acabar

Confira alguns dos conceitos mais comuns e falsos, ainda tão presentes na cultura e percepção de alguns membros da Igreja.


Por Luiz Botelho 18 de Março de 2018
5 Doutrinas de Corredor Que Precisam Acabar

Algo que sempre admirei na doutrina Mórmon é a capacidade que ela nos dá de enxergar além da superfície e em alguns aspectos nos ajudar a ver a profundidade da criação e doutrina.

Tal complexidade frequentemente desenvolve em membros da Igreja um desproporcional sentimento de devoção que frequentemente os condicionam a depositarem fé em falácias doutrinárias que a princípio parecem tornar o Evangelho e sua Igreja mais atraentes. Confira abaixo 5 ideias comuns, porém totalmente equivocadas na Igreja:

1. "A Igreja é perfeita. Os membros não."

Todos sabemos que membros da Igreja são falhos, mas a ideia de que se a Igreja é verdadeira ela é consequentemente perfeita é absolutamente falsa. Membros frequentemente utilizam essa ideia como uma defesa à organização da Igreja, o que é uma manobra em muitos casos compreensível em responsabilizar homens por falhas no sistema. Basta lembrar que tal conceito de perfeição organizacional jamais foi ensinado por nenhum líder da Igreja. Por outro lado, o então Segundo Conselheiro na Primeira Presidência, Elder Uchtdorf pronunciou exatamente o oposto quando afirmou:

"E para ser perfeitamente honesto, houve ocasiões em que membros ou líderes da Igreja simplesmente cometeram erros. Talvez tenha havido algo que foi dito ou feito e que não estava em harmonia com nossos valores, princípios, ou nossa doutrina. Suponho que a Igreja seria perfeita somente se nela só houvesse pessoas perfeitas. Deus é perfeito, e Sua doutrina é pura. Mas ele trabalha por nosso intermédio — Seus filhos imperfeitos — e as pessoas imperfeitas cometem erros."[1] (Ênfase adicionada)

2. "Isso não é importante para a minha salvação."

Outro clichê um tanto comum na menor brisa de debates doutrinários é a ideia de que alguns conhecimentos simplesmente devem ser ignorados por "não serem importantes para a salvação." Há tantos problemas em tal premissa que fica difícil até saber por onde começar a analisá-la. A frase é frequentente utilizada quando membros da Igreja mais ativos em seus estudos se dispõem a debater tópicos geralmente não abordados em reuniões convencionais. Outra utilização comum da ideia as vezes acontece por pessoas que são submetidas a perguntas a qual não possuem respostas.

A realidade é que o que faz e não faz diferença na salvação de um indivíduo pode variar drasticamente de pessoa para pessoa. Algo que talvez não cause nenhum impacto espiritual em fulano, pode em muitos casos ser um fator determinante no testemunho de sicrano. Brigham Young sobre isso ensinou:

"A religião de Jesus Cristo não somente torna as pessoas familiarizadas com as coisas de Deus, desenvolvendo no íntimo delas a virtude moral e a pureza, mas também proporciona-lhes todo o incentivo e persuasão possíveis para que cresçam em conhecimento e inteligência em todos os ramos da mecânica ou no campo artístico e científico. Toda a sabedoria, todas as artes e ciências do mundo pertencem a Deus e têm como propósito o benefício de Seu povo."[2]

Evidentemente há conhecimentos que podem ser mais importantes do que outros em diferentes circunstâncias de nossas vidas. Colocar uma pedra sobre um debate de ideias sob a justificativa do conhecimento "não ser importante para a salvação" é, entretanto, preguiça intelectual e demonstra a dificuldade encontrada por alguns em abrirem suas mentes para aprenderem mais.

3. "Profetas atuais da Igreja veem a Deus e Jesus Cristo pessoalmente."

É verdade que uma diferença crucial entre a doutrina da Igreja SUD e demais denominações Cristãs está na crença da existência de profetas e apóstolos modernos, comparáveis aos da antiguidade. O relato da restauração da Igreja original praticamente inicia com a visão de Joseph Smith de Deus e Seu Filho Jesus Cristo e subsequentes aparições. A ideia de que Deus e Cristo apareceram ao menino Joseph, entretanto, parece ter desenvolvido em muitos membros a concepção de que todo profeta moderno igualmente interage com Deus e Cristo pessoalmente tão frequentemente quanto trocam de roupa. 

O Elder Oaks em ao menos duas ocasiões (estando em uma delas eu presente na reunião), comentou tal ideia. Ao ser questionado sobre o que devemos orar para receber o mesmo tipo de testemunho concedido a Alma, o filho, Elder Oaks respondeu:

"O Senhor dá apenas alguns desses tipos de experiências e elas são registrados nas escrituras para nos chamar a atenção e nos ensinar a resposta. Mas eu nunca tive uma experiência como essa e eu não conheço ninguém na Primeira Presidência ou no Quórum dos Doze que teve esse tipo de experiência."[3] Elder Oaks então prosseguiu afirmando que é possível receber o mesmo tipo de "testemunho" sem necessariamente presenciar um evento milagroso.

Em um outro serão, que tive a oportunidade de participar, proferido em 2016, em Provo, Utah, Elder Oaks proveu uma resposta similar para uma pergunta similar, afirmando que as respostas que recebe do Senhor à orações ocorrem da mesma maneira a de um membro comum da Igreja, por meio de impressões e sentimentos. Naturalmente Deus pode se manifestar a seus servos da maneira que julgar melhor, inclusive pessoalmente. O ponto em questão, entretanto, está na ideia de que aparições pessoais e milagrosas são hábitos corriqueiros na comunicação entre Deus e seus filhos, o que de acordo com Elder Oaks, não parece ser o caso.

4. “Quando o profeta fala, (...) o debate acaba”[4]

Tal passagem tem por muito tempo sido utilizada por alguns para defender a ideia de que profetas possuem a inquestionável decisão final no que se refere a determinar a veracidade de uma posição em um debate. O conceito na filosofia é conhecido como "apelo a autoridade" e visa determinar a veracidade de um argumento não pela validade do argumento em si, mas pela autoridade daquele que o afirma. Há dois problemas em tal concepção.

O primeiro está no fato da versão traduzida não transmitir fielmente a mesma ideia da original em Inglês, "when the prophet speaks, the thinking is done". A versão Inglesa parece indicar a ideia de que quando o profeta fala, uma análise ou reflexão prévia já foi realizada, o que é muito diferente de afirmar que o debate sobre um tema acaba quando o profeta expõe sua visão, venha ela de revelação ou de seu próprio entendimento.

O próprio Presidente George Albert Smith, ao ser questionado sobre tal passagem, esclareceu:

"Eu tenho o prazer de assegurá-lo de que você está correto em seu entendimento de que a passagem citada não representa a verdadeira posição da Igreja. Até mesmo implicar que membros da Igreja não devem buscar sua própria compreensão é interpretar incorretamente o verdadeiro ideal da Igreja, que é a de que cada indivíduo deve obter por si mesmo um testemunho da veracidade do Evangelho..."[5]

5. "A Mãe Celestial é tão sagrada que não devemos falar sobre ela."

Esse é um exemplo clássico de como boatos são proliferados de geração a geração, mesmo quando não se sabe de onde o ensinamento surgiu. Tal conceito simplesmente não é verdadeiro.

A escritora Amy Irvine em sua publicação de 2008 ressalta esse conhecido argumento através da história de uma fictícia visitante do Templo que pergunta sobre os aspectos femininos da Deidade e recebe como resposta "que a Mãe Celestial é tão especial que Deus nos declarou que jamais devemos falar sobre ela—que o Senhor a tem como no topo de um pedestal e que jamais deveria ser vista ou que falassem sobre Ela, com temor de que sua pureza fosse manchada"[6]

Pesquisas históricas e uma análise cuidadosa a tudo o que já foi oficialmente dito por oficiais autorizados da Igreja, indicam de maneira conclusiva que a ideia de "Silêncio sagrado com relação à Mãe Celestial" é falsa, não possuindo origem em qualquer revelação a líderes da Igreja. De fato, muito já foi dito sobre ela e líderes da Igreja de diferenres épocas frequentemente se referiram à natureza da Mãe Celestial, sua identidade, propósito e papel no desenvolvimento do Plano de Salvação. Uma análise detalhada de tais referências pode ser encontrada nos seguintes artigos:

Um Estudo dos Ensinamentos Históricos Sobre a Mãe Celestial

Artigo Oficial no Site Lds.org

A questão realmente relevante é... Se o papel Dela é tão importante no Plano de Salvação, por que ouvimos tão pouco sobre Ela? Essa, entretanto, é aparentemente uma pergunta ainda sem resposta clara ou definida.

Referências:

[1] Venham, Juntem-se a Nós, Elder Uchtdorf, Conferência Geral de Outubro de 2013
[2] Aprender pelo Estudo e pela Fé; Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, 1997
[3] Elder Oaks, Serão proferido em Janeiro de 2016. O serão pode ser encontrado clicando aqui. A parte mencionada se encontra aos 30m e 15s
[4] Elaine Cannon, “If We Want to Go Up, We Have to Get On,” Ensign, novembro de 1978, p. 108
[5] George A. Smith Papers (Manuscript no. 36, Box 63-8A), Special Collections, Marriott Library, University of Utah, Salt Lake City, Utah
[6] Susa Young Gates, “The Editor’s Department,” Young Woman’s Journal 2 (July 1891)



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