Crença, Testemunho e a Arte de Não Saber | Intérprete Nefita
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Crença, Testemunho e a Arte de Não Saber

Crença, Testemunho e a Arte de Não Saber

Uma década atrás, após visitar e conhecer as diferentes perspectivas de dezenas de religiões, conheci através de amigos A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e depois de quase um ano de estudo e reuniões com os missionários, finalmente decidi que era o momento de dar um passo à diante e tornar-me um membro da Igreja. Muitas coisas no início me deixaram surpresos, mas poucas coisas em nossa cultura me chamaram mais a atenção do que a ênfase depositada nos membros e pesquisadores com relação a adquirir um testemunho e “saber que essas coisas são verdadeiras.”

De fato, uma parte essencial em nossas reuniões dominicais consiste em compartilhar nossas convicções e o fato de “sabermos” que Cristo vive, que a Igreja e o Livro de Mórmon é verdadeiro.

CADA PESSOA POSSUI UM TESTEMUNHO ÚNICO OU AINDA ESTÁ DESENVOLVENDO UM

A busca pelo “saber”, entretanto, não acontece de maneira idêntica para todas as pessoas, e em alguns casos, algumas convicções podem jamais serem recebidas nesta vida. Cada pessoa que recebe o Evangelho normalmente possui um plano de fundo de vida que define suas perspectivas com relação à Deus, espiritualidade, racionalidade e o modo com que veem o mundo. Entender este princípio é essencial para que possamos adquirir a capacidade de apresentar o Evangelho da maneira correta para cada pessoa.

Para algumas pessoas, crer no que não se pode ver é tão fácil como respirar. Para outras, evidências racionais precisam fazer parte do processo ou a informação não será digna de consideração. É verdade que “vivemos pela fé, não por vista” (2 Coríntios 5:7) mas ainda assim, a fé precisa estar equiparada por evidências racionais ou/e empíricas para que não seja apenas um vago desejo de acreditar em algo ou alguém. A fé cega de fato contraria o tipo de devoção que o Deus a quem reverenciamos deseja que tenhamos.

TANTO CRER COMO SABER SÃO DONS ESPIRITUAIS

No contexto religioso a ânsia por “saber” frequentemente cria obstáculos, ao invés de soluções para problemas espirituais. Certo sábio certa vez disse que são as perguntas, não as respostas, que movem o mundo. Embora a expressão “eu sei” semanticamente signifique uma certeza absoluta e incontestável de algo, na Igreja normalmente a utilizamos para expressar uma grande convicção ou crença em algum princípio, alguns dos quais nem sempre podem ser testados.

Como estudante de uma área parcialmente histórica e parcialmente científica, pessoalmente sempre vi mais beleza no que denomino a arte de não saber. Presumir que todas as questões complexas já foram respondidas ou serão reveladas pelo Senhor unicamente no futuro contribui em muitos casos para o desenvolvimento de uma preguiça intelectual e dissonânca cognitiva quando informações conflitantes são apresentadas. Para adeptos absolutistas da teoria da terra nova, por exemplo, (que prega que a terra tem literalmente cerca de 6 mil anos) o simples desejo de acreditar os faz rejeitar cegamente milhares de evidências que demonstram que os fundamentos de sua crença estão incorretos. Para religiosos extremistas, a busca por respostas feitas pela ciência é desnecessária, pois toda a criação se resume a “foi Deus quem fez.”

Ao desenvolver nossos testemunhos no Evangelho Restaurado é essencial que entendamos o papel das perguntas e dúvidas no processo de conversão, que persiste enquanto vivermos, não terminando no batismo. D&C 46:11-14 retrata magnificamente esse princípio ao afirmar:

“Pois a todos não são dados todos os dons; pois há muitos dons e a cada homem é dado um dom pelo Espírito de Deus. A alguns é dado um, a outros é dado outro, para que desse modo todos sejam beneficiados. A alguns é dado saber, pelo Espírito Santo, que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que foi crucificado pelos pecados do mundo. A outros é dado crer nas palavras deles, para que tenham também vida eterna se permanecerem fiéis.”

O dom de “acreditar” é mencionado de maneira paralela – não inferior – ao dom de “saber.” Jesus enalteceu o dom de acreditar quando afirmou:

Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram. (João 20:29)

Saber é um processo que para alguns pode levar dias, meses ou anos, enquanto para outros pode não acontecer nessa vida. Em uma Igreja que valoriza a diversidade, é essencial que desenvolvamos a capacidade de reconhecer essa diferença espiritual entre as pessoas, evitando assim que depositemos uma pressão desnecessária para que fulano ou sicrano “saiba” hoje as mesmas coisas que eu clamo saber.

Os mesmos conceitos de dúvidas e de não saber que em alguns casos nos trazem sofrimento e angústia, movem o mundo e nos proporciona a possibilidade de progredir e aprender. Não saber nos induz a buscar. Apenas presumir que já sabemos tudo, por outro lado, contribui para o desenvolvimento de obstáculos e deixa transparecer pobreza intelectual.

ACREDITAR REQUER SINCERIDADE. SABER REQUER HUMILDADE.

Minha busca pessoal por espiritualidade apenas realmente começou quando decidi que progredir era a meta e não necessariamente obter um conhecimento perfeito sobre cada princípio do Evangelho, algo que pode variar de pessoa para pessoa. Como converso, aprendi a importância de procurar e defender a verdade “não importa de onde ela venha e para onde vá,” mesmo que ela nos conduza para conclusões que antes relutávamos para aceitar.

Se você está analisando a possibilidade de tornar-se um membro da Igreja, se é um membro novo ou de décadas, gostaria de afirmar com convicção que é absolutamente aceitável e louvável se toda a fé que possui no momento o permite apenas “acreditar.” Incerteza não apenas faz parte de nossa experiência mortal, mas é um elemento insubstituível em nosso progresso.

Apesar de todos estes anos como membro da Igreja e questionador ávido (desde “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha” até “por que alguns dizem que o certo é biscoito e outros bolacha”) continuo a me maravilhar com a beleza do não saber, do “apenas acreditar” e de como tais coisas possuem o potencial de nos tirar de nossa zona de conforto, pesquisar, aprender e progredir. Ao nos depararmos com as tempestades da vida, não nos esqueçamos do imensurável poder de que “tudo é possível ao que crê.”

Que possamos nestes momentos de dúvidas e incertezas agir como o pai do menino curado por Cristo, quando com lágrimas clamou, “Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade”.(Marcos 9:22–24; ver também versículos 14–21.)

Artigo do autor inicialmente publicado no Mormonsud.net

Escrito por: Luiz Botelho em 10/07/2017




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