Quando a Oposição Vem de Dentro | Intérprete Nefita
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Quando a Oposição Vem de Dentro

Quando a Oposição Vem de Dentro

Ao visitar e acompanhar ao vivo hoje mais uma Conferência Geral da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, tive o grande privilégio de sentir o Espírito de Deus através da beleza do Templo de Salt Lake City, palavras das Autoridades Gerais e alegria em cada rosto que, como eu, também visitava o local em busca de fortalecimento espiritual.

Como de costume, entretanto, o evento também reuniu pessoas de diferentes crenças e religiões que com cartazes e gritos, atacavam a Igreja, suas crenças e membros numa visível tentativa de hostilizar nossa fé ou exercerem suas convicções de que estamos errados, ou ambos.

Parte de tais críticos são os chamados "críticos sectários," e geralmente englobam Cristãos de outras denominações e que são adeptos de críticas que questionam o fato de Mórmons serem cristãos, clamam que adoramos um "jesus diferente," alegam que usamos "uma outra Bíblia" ou rejeitam a ideia de novas revelações ou profetas modernos. Outro grupo comum, presente entre os indivíduos na conferência são denominados "críticos seculares," e normalmente é constituído de pessoas menos emotivas--geralmente ateus ou agnósticos--e que combatem não apenas a Igreja SUD, mas todas as religiões de forma geral. A reação dos membros da Igreja em tal cenário é muito variada, mas demonstra em muitos casos o fundamento e mecanismo de defesa de cada pessoa ao lidar com opositores e oposição. 

Pouco tempo depois, entrei no Centro de Conferência para a segunda sessão de Sábado, que tradicionalmente inclui a apresentação das estatísticas da Igreja e solicitação de apoio às Autoridades Gerais. Como ocorrido em conferências recentes anteriores, os votos de apoio não foram unânimes, possuíndo a sessão um pequeno grupo de pessoas que levantaram suas mãos em oposição à Primeira Presidência e Doze Apóstolos, pronunciando em alta voz, "nos opomos", após ouvirem do Elder Uchtdorf que se manifestassem aqueles que não estivessem de acordo.

Ao presenciar a cena, algumas coisas me chamaram a atenção, e em meio ao incidente, estive mais atento e interessado em verificar à reação dos membros e liderança do que necessariamente tentar descobrir e visualizar quem eram os "opositores."

Parte dos presentes simplesmente ignoraram o ocorrido, alguns pareciam vivenciar o desconforto natural sentido por aqueles que tem suas convicções desafiadas e outra parte parecia muito surpresa. Tais reações eram praticamente as mesmas demonstradas no lado de fora com os críticos e seus cartazes, e demonstra a natural diversidade de abordagem e espiritualidade de todos nós, membros da Igreja, quando submetidos à oposição. A abordagem do Elder Uchtdorf no caso foi a única que não me deixou surpreso. Elder Uchtdorf, que conduzia a sessão, respeitosamente notou e reconheceu os votos contrários, que da mesma forma, foram feitos da maneira proposta e sem hostilidade, embora esteja amplamente aberto ao debate a validade, coerência (ou incoerência) e argumentos dos indivíduos que se upuseram. Os apoios foram realizados, as oposições reconhecidas, a sessão continuou e a vida prosseguiu.

Em meio a todos esses eventos, alguns pontos importantes precisam ficar claros:

1. Lidar com oposição é algo absolutamente natural e precisamos como membros da Igreja compreender que nossa posição religiosa é mais sólida e mais digna de credibilidade quando tratamos aqueles que divergem de nosso ponto de vista com respeito e pacifismo, mesmo quando discordamos inteiramente de suas opiniões. Não precisamos necessariamente nos engajar em debates intermináveis--porque acredite, está para nascer alguém convertido dessa maneira--mas da mesma forma, não há necessidade de tratar com desprezo aqueles que em alguns casos estão simplesmente agindo de acordo com a verdade que possuem e acreditam estar nos "alertando" com a mesma convicção que acreditamos estar "alertando" o mundo.

Ao me aproximar de um dos críticos extremamente emotivo em meio à seus ataques e palavras hostis, apenas sorri e perguntei, "Olá amigo, posso tirar uma foto com você?" Em menos de um segundo, ele me olhou não mais como um inimigo, confirmou que eu poderia tirar a foto ao seu lado e em um ato pacífico e inesperado, notei uma imediata mudança de atmosfera em relação a seu comportamento segundos antes.

2. Levantar questões não é um problema. Ter perguntas não é um problema. Ser submetidos à críticas não é um problema. Na conferência de 2013, o Elder Uchtdorf sobre tais indivíduos afirmou:

"Às vezes, presumimos que tenha sido porque eles foram ofendidos ou porque são preguiçosos ou pecadores. Na verdade não é assim tão simples. De fato, não há um único motivo que se aplique a todas as várias situações.

Nesta Igreja que honra o arbítrio pessoal tão fortemente, que foi restaurada por um jovem que fez perguntas e buscou respostas, respeitamos aqueles que sinceramente buscam a verdade. Pode partir-nos o coração quando sua jornada os leva para longe da Igreja e da verdade que eles encontraram, mas honramos seu direito de adorar ao Deus Todo-Poderoso de acordo com os ditames de sua própria consciência, assim como reivindicamos esse privilégio para nós mesmos."[1]

Ao compreendermos e termos esse princípio em mente, desenvolveremos a capacidade de defender a verdade quando necessário, manter um silêncio reverente quando preciso e simplesmente afirmar, "eu não sei" quando a situação assim requerir.

3. A abordagem da Primeira Presidência para os votos em oposição demonstrou ao meu ver dois pontos significativos. O equilíbrio entre reconhecer a existência de diversidade de perspectivas dentro da Igreja ao passo que torna-se claro que os apoios não tem como objetivo "validar" ou "aprovar" as escolhas, mas informar e dar aos membros a oportunidade de exercerem seu livre arbítrio. De fato, as leis e escolhas de Deus não estão sujeitas à votos humanos e por mais que a Igreja promova a ideia de liberdade religiosa, é preciso lembrar que o Reino de Deus não é uma democracia, mas pertence a um que sabe o que faz e como faz, mesmo que utilize homens imperfeitos para isso e mesmo que tais medidas em certas ocasiões não pareçam fazer sentido.

Conclusão

Pouco mais de 10 a 15 anos atrás, praticamente toda a crítica e oposição direcionada à Igreja vinha de fora. Atualmente, a crítica externa continua presente, mas nasce em nossos dias um tipo de oposição o qual muitos não estão familiarizados e por essa razão ainda possuem dificuldade em saber como lidar. Me refiro à oposição interna. Tais indivíduos em estudos demográficos são geralmente chamados de "Millenials" ou "Geração Y," e constitui em grande parte pessoas nascidas entre 1980 e 2000, tiveram ou tem mais acesso à informação e possuem um senso crítico que produz mais resistência a seguir instruções sem entender os motivos. Millenials não são inimigos naturais, mas pessoas mais propícias a questionar e discordar. 

Precisamos entender que a mudança no mundo, produz uma mudança no desenvolvimento de cada geração e forçosamente requer uma mudança de abordagem em alguns sentidos. Sendo eu mesmo (e pelas estatísticas de acesso do nosso site, provavelmente você também) um Millenial, gostaria de convidá-lo a refletir sobre tais questões e convocá-lo a promovermos na Igreja uma atmosfera mais sábia de interação e abordagem a perguntas, críticos e críticas. Antes de conhecer a Igreja, fui um crítico do Evangelho, e o que me ajudou a olhar a doutrina e ensinamentos da Igreja de Cristo com outros olhos foi o fato de ter eu sido tratado com amor e respeito, não desprezo ou descaso, por parte daqueles que clamavam conhecer a verdade.

Ações falam mais do que palavras e amor muito mais do que argumentos bem elaborados. Ao lidarmos com oposição dentro e fora da Igreja, que possamos tratar a todos com amor, respeito e de forma cortez, mesmo quando o homem natural desejar levantar a voz para condenar ou o medo nos tentar a nos escondermos em nosso próprio mundo, ignorando tudo e todos ao nosso redor. 

Fontes

[1] Venham, Juntem-se a Nós; Presidente Dieter F. Uchtdorf, Outubro 2013.

Escrito por: Luiz Botelho em 03/04/2016




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COMENTÁRIOS

João Henrique em 01/07/2017

Não se fala sobre o teor da oposição, sobre o nível da tolerância que se deva nem se distingue o crítico sincero dos que são maliciosos e desejam difamar a Igreja e seus líderes. Difamações popularizadas entre os antimórmons contra o profeta Joseph Smith e Brigham Young devem ser toleradas na Escola Dominical e na Reunião Sacramental? Impedir que homens ou mulheres que não seguem o profeta da Igreja entrem no Templo é intolerância também? E quanto às reivindicações do movimento LGBT ou do movimento Ordain Woman? A Igreja deve mudar a doutrina e ensinamentos para aceitá-las? Deixo aqui as palavras do Élder Dallin H Oaks em que ele cita o Élder Packer em seu discurso "Verdade e tolerância": O Presidente Boyd K. Packer, Presidente do Quórum dos Doze Apóstolos, ensinou: “A palavra tolerância nunca está sozinha. Exige um objeto e uma reação para qualificá-la como virtude. (…) A tolerância é frequentemente cobrada, mas raramente retribuída. Cuidado com a palavra tolerância. É uma virtude muito instável”. https://www.lds.org/liahona/2013/02/balancing-truth-and-tolerance?lang=por

Lucas Vilela em 27/06/2016

Toda oposição é a forma de obter forças para o que é verdadeiro. Acredito que a Igreja precisa avaliar todo o contexto da geração atual e manter o diálogo pacífico. A fé se consolida com as críticas. O bem é visível com a existência do mal (aqui na terra). Grande abraço.

Marcos Paulo em 21/06/2016

Excelente, irmão Botelho! Muito obrigado pelo artigo.

Paulo em 28/05/2016

Muito bem colocadas suas palavras Luiz, não é porque uma pessoa pensa diferente de nós que ela se tornará nossa inimiga. Vejo a posição da Igreja muito semelhante a posição do nosso Salvador quando recebia críticas, o silêncio, a mansidão e o respeito, e como você fez com o rapaz, um sorriso sincero, as vezes tudo isso vale mais do que mil palavras e toca no fundo da alma daquele que agride.

Demetrius em 30/04/2016

Meu amado irmão Botelho parabéns, perfeito , pois esse foi o equilibrio da alma de nosso Salvador durante sua missão . Assim , como todos os nossos profetas e assim deveria ser nosso equilibrio como lideres locais e não promover a perseguição e retalhações. Sua atitude foi brilhante e valorosa. Admiro sua postura e continue sempre assim , que o Pai Celestial te abençoe.

Glauco em 25/04/2016

Excelente artigo, mas apenas um comentário! Creio que não devemos confundir pessoas questionadoras com pessoas mal intencionadas interessadas em deturpar os ensinamentos da igreja e promover a desordem.

Ricardo em 03/04/2016

Obrigado pelo artigo ! Creio que precisamos tratar com naturalidade essas manifestações do arbítrio de outros, mesmo que sejam de nossa própria fé.