Reduzir e Simplificar a Adoração na Igreja - História da Igreja | Intérprete Nefita

Reduzir e Simplificar a Adoração na Igreja

Ao analisar a história dos primeiros cristãos, observa-se que reduzir e simplificar a adoração na Igreja seria a cura para muitas das mazelas espirituais daquele povo - e para o nosso povo também.


Por Lukas Montenegro 10 de Março de 2019
Reduzir e Simplificar a Adoração na Igreja

Espanto e alegria tomaram o coração de muitos que assistiam a conferência geral de outubro de 2018. Nela, o profeta de Deus anunciou uma mudança drástica na dinâmica de reuniões da Igreja de Jesus Cristo. Outros ficaram naturalmente tristes, porque amam a convivência dos santos e desejam passar mais tempo nas capelas e envolvidos nas atividades da igreja.

É bom lembrar que, longe de ser somente a "redução de uma hora na programação dominical”, esse novo programa destina-se a simplificar e reduzir os programas em geral. Seu propósito é a centralizar mais eficazmente a fé das pessoas em Jesus Cristo, e não na igreja. A importância desse princípio não pode ser ignorada quando se examina um pouco da história dos primeiros cristãos.  Esse panorama da igreja primitiva nos dará a perspectiva de porque essa mudança de foco pode abençoar os membros da igreja de hoje, com uma renovação de sua fé.

 

A adoração na Igreja Primitiva

O estilo de culto cristão assombra as demais religiões do mundo pela singeleza e humildade de seu cerimonial, desde o tempo da igreja primitiva. Descrevendo os cristãos da época seguinte a ressureição de Cristo, Mosheim escreveu[1]:

“Outra circunstância que irritava os romanos contra os cristãos era a simplicidade de seu culto que não se assemelhava em nada aos ritos sagrados de qualquer outro povo. Os cristãos não tinham sacrifícios, nem templos, nem imagens, nem oráculos, nem ordens sacerdotais; e isso era suficiente para atrair sobre eles a reprovação de uma horda ignorante que não imaginava poder haver religião sem tudo isso”[2].

Por sua simples escolha de centralizar sua fé em Cristo, em vez de em demonstrações exteriores, seus seguidores foram duramente perseguidos. Ainda assim, enquanto conservaram seu foco no lugar certo, mantiveram-se unidos e seu número só crescia. Milner[3] relata:

“E aqui encerramos a visão do segundo século, que, na maior parte, exibiu prova da graça divina, tão fortes, ou quase, como no primeiro. Vimos a mesma firme e simples fé em Jesus, o mesmo amor a Deus e aos irmãos; e aquilo que eles singularmente superavam os cristãos modernos, isto é, o mesmo espírito celestial e vitória sobre o mundo”[4].

 Como se sabe, contudo, esse espírito de pureza não durou muito tempo na igreja, que se via as portas de uma apostasia geral desde o fim do primeiro século da era Cristã. Ao contrário dos motivos comumente atribuídos a apostasia, o Elder James E. Talmage aponta o desejo de membros e líderes da igreja em mudar, ampliar e decorar as cerimônias e reuniões da igreja como umas das causas dominantes do declínio espiritual. Ele diz:

“Já mencionamos o ridículo com que os pagãos cumularam a Igreja Primitiva, em virtude da simplicidade do culto cristão. Esse motivo de desprezo não era menos salientado pelos críticos judaístas, para quem os rituais e cerimônias, o formalismo e os ritos prescritos eram essenciais à religião. Logo no começo de sua história, a Igreja manifestou certa tendência para substituir a primitiva simplicidade de seu culto por cerimônias elaboradas, pautadas no ritual judaísta e idolatrias pagãs”[5].

Isso evoluiu de maneira perigosa, como registra Mosheim:

“Nesse século (Século 2 D.C) muitos ritos e cerimônias desnecessárias foram acrescentadas ao culto cristão, sendo essas inovações extremamente ofensivas aos homens sábios e bons. Essas alterações, conquanto destruíssem a bela simplicidade do evangelho, eram do agrado das multidões, que se compraziam mais com a pompa e esplendor das instituições visíveis do que com os encantos inerentes à piedade sólida e racional, e que geralmente davam pouca atenção a qualquer objeto que não tocasse seus sentimentos corpóreos”[6].

Não é interessante o contraste entre Milner e Mosheim a respeito do século 2? Enquanto um identificava que as graças de Deus ainda estavam sobre a igreja primitiva, o outro salientava as mudanças e atenção desnecessária dada a certos ritos da igreja. Isso leva a conclusão de que essas adições são quase sempre recebidas de maneira inocente, e abraçadas alegremente como um sinal de coragem e fé. Com o tempo, contudo, elas sufocam a verdadeira fé, já que se todo tempo é dedicado as reuniões e programas, nenhum resta para o meu relacionamento pessoal com Deus.

 

Um paralelo com os Dias de Hoje

“Graças damos a Deus por um profeta, que nos guia no tempo atual”. A existência de um profeta de Deus em nossos dias, é uma garantia de que seu evangelho nunca mais será desvirtuado até a segunda vinda do Messias. Sabemos que alterações grosseiras na doutrina do Evangelho não ocorrerão em nossos dias. Ainda assim, o zelo excessivo com o cronograma da igreja, pode estrangular a fé de alguns.

Não se é conhecido amplamente o exemplo de professoras de classes do evangelho que estavam mais preocupadas com a beleza da letra no quadro ou a criatividade do brinde, do que em instruir suas irmãs na doutrina do Reino? Ou talvez de homens que, tão preocupados em bater a meta de visitas no mês, não consideraram que a maior dádiva que podiam dar aquelas famílias era uma preocupação genuína com seu bem-estar? Não são esses exemplos tácitos do que Mosheim quis dizer acima, dos que “se compraziam mais com a pompa e esplendor das instituições visíveis do que com os encantos inerentes à piedade sólida e racional”?

Por anos, a política da igreja, com um bom intento, era voltada a acolher os membros em suas atividades o máximo que possível. Fazendo isso, os líderes sentiam que estavam os salvaguardando do mundo. Mas aqueles que examinaram as palavras dos profetas vivos, sabiam que esses dias iriam acabar, e que o dia em que o evangelho centrado no lar e no indivíduo se iniciaria, iria chegar. Muitas declarações foram dadas nesse sentido[7]. Hoje vivemos para testemunhar esses maravilhosos novos tempos.

Conclusão

O exemplo da igreja primitiva é poderoso em nos mostrar que as mudanças dos tempos atuais precisariam vir. Dias em que, assim como o povo de outrora, se o foco da Igreja Restaurada não mudasse, muitos de seus membros poderiam sofrer sérias consequências espirituais ao firmar sua base nos programas da Igreja, e não no Salvador Jesus Cristo. Hoje somos felizes expectadores e fieis participadores dessas mudanças. O discípulo sincero reconhecerá nessa nova abordagem da igreja, a mão de Deus. Ele sentirá alegria e gratidão ao aprender e vivenciar o Evangelho mais plenamente em sua vida, trazendo então sua contribuição pessoal a igreja. Esta, mantida simples e enxuta, será um bálsamo de maior aperfeiçoamento e oportunidades sagradas de serviço.

REFERÊNCIAS

1. Johann Lorenz von Mosheim, foi um clérigo e historiador do Cristianismo, famoso pela publicação de diversas obras de excelência no tema de historicidade do Cristianismo, análise dos séculos que sucederam o surgimento da igreja Cristã e interpretação Bíblica. Ele é citado abundantemente por autores membros da Igreja, em especial nos trabalhos de James E. Talmage.
2. Mosheim, “Ecclesiastical History”, séc. I, parte I, cap. 5:6,7.
3. Joseph Milner foi um famoso historiador e comentador da doutrina e história do Cristianismo, tendo vivido no século XVIII.
4. Milner, “Church History”, Sec. II, cap. 9
5. James E. Talmage, “A Grande Apostasia”, Cap. 8, pg. 109;
6. Mosheim, “Ecclesiastical History”, Sec. II, parte II, cap. 4
7. Para citar apenas alguns exemplos, recomenda-se a leitura de "É Maravilhoso!", discurso proferido pelo Elder Dieter F. Uchtdorf, em Outubro de 2015 e Spencer W. Kimball, "Faith Precedes the Miracle", p. 253-257.



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