4 Argumentos Ruins para a Existência de Deus - Evidências | Intérprete Nefita

4 Argumentos Ruins para a Existência de Deus

A maioria das pessoas já desenvolveu algum tipo de apologética quando suas crenças em Deus foram colocadas à prova. Abaixo seguem quatro argumentos apologéticos para a existência de Deus bastante usados, mas que podem ser derrubados depois de uma análise cuidadosa de seu conteúdo.


Por Lukas Montenegro 24 de Julho de 2021
4 Argumentos Ruins para a Existência de Deus

A apologética é a disciplina dedicada à defesa da religião por meio de argumentações sistemáticas e do discurso. A maioria das pessoas já desenvolveu algum tipo de apologética quando suas crenças em Deus foram colocadas à prova. Abaixo seguem quatro argumentos apologéticos para a existência de Deus bastante usados, mas que podem ser derrubados depois de uma análise cuidadosa de seu conteúdo:

 

Pascal's Wager (A  Aposta de Pascal)

 

O argumento conhecido como "aposta" de Pascal (Pascal's wager, em inglês)[1] é um que talvez muitos de nós já tenhamos considerado (mesmo sem conhecê-lo por nome), ao tentar responder a pergunta: "E se Deus não existir?". Em resumo, a aposta de Pascal é uma análise de risco: Caso Deus não exista, o fiel terá sacrificado certos prazeres da vida, enquanto que o infiel não terá perdido nada; já se Deus existir, o fiel terá garantido uma eternidade de felicidades enquanto que o descrente acabará numa eternidade de sofrimento e dor. Assim, parece mais lógico acreditar em Deus do que não acreditar. O argumento parece fazer muito sentido, mas uma análise mais cuidadosa facilmente revela sua falha crucial: a aposta de Pascal  apresenta uma falsa dicotomia do mundo, como se só existessem as opções "acreditar em Deus" ou "não acreditar em Deus".

O fato verdadeiro é que existem diversos possíveis deuses e concepções religiosas sobre recompensa e castigo eterno. Considerando sua imensa quantidade, existe praticamente a mesma probabilidade de alguém ir para o inferno por escolher em um Deus falso que um ateu tem de ir para o inferno por não escolher Deus algum. A verdadeira dicotomia que "corrigiria" o argumento da aposta de Pascal[2] seria escolher, de todas as diversas crenças, seguir aquela que possuísse o castigo mais severo para os infieis. Assim, se fosse verdadeiro, aquele Deus o concederia grandes recompensas e se fosse falso, a pessoa evitaria a punião mais pesada. No contexto da aposta de Pascal, seguir a doutrina de A Igreja de Jesus Cristo, que afirma que uma vida justa fora do evangelho leva ao Reino Terrestrial, onde há paz e prosperidade, seria certamente uma das menos aconselháveis a se seguir. É por isso que é melhor evitar numa discussão sobre a existência de Deus, o argumento da aposta de Pascal.

 

O Universo Não Pode ter Vindo do Nada

 

Esse é outro arugmento muito utilizado, e possui diversas variações, alguns chamam de argumento da causa original ou argumento do relojoeiro. A ideia fundamental é: se tudo no universo possui uma causa para existir ou funcionar, também deve haver uma causa primordial para o universo - Deus. Ou seja, já que o universo não pode ter vindo do nada, ele veio de Deus. Existem diversos problemas nesse argumento. O primeiro é o próprio sentido do que seria "nada": não há uma definição clara e inequívoca do nada. Por exemplo, na cosmologia, ramo da ciência que estuda o surgimento do universo, o vácuo espacial poderia ser considerado como "nada". Entretanto, sabemos por um fenômeno chamado efeito Casimir que o vácuo pode sim fazer muitas coisas - ele está constantemente produzindo pares de partículas. O vácuo na verdade está preenchido por campos quânticos que na média dão zero, que são o nada, mas que ainda assim em certas situações, produzem alguma coisa[3]. Existe extenso material na física das partículas elementares que mostra como o vácuo (o vazio, o nada), pode ser excitado para produzir alguma coisa - partículas. Assim, nessa definição do nada, coisas podem sim se originar dele. 

Para algumas pessoas, o vácuo quântico não é o nada, visto que está permeado desses campos. Voltamos então para a definição do que seria um nada, visto que fisicamente não se é possível definir um nada para além disso, e então incorreríamos numa  dificuldade prática e operacional de testar as propriedades desse "nada". Um outro problema para a ideia de que seria necessário um Deus como causa inicial do Universo é que, no modelo atual do big bang, nada que aconteceu antes da singularidade poderia ter influenciado o desenvolvimento do universo. E mais, o próprio espaço e tempo foram criados com a expansão da singularidade[4]. Assim, ainda que Deus tivesse programado com perfeição o universo antes de seu surgimento, essa programação seria totalmente destruída pela singularidade. O fato geral dessas colocações é que não existem evidências de que o universo precisasse de uma causa inicial consciente ou que seria impossível que se desenvolvesse meramente por meios naturais. É bom ter prudência na hora de usar esse tipo de argumento.

 

Deus é Provado através de Suas Criações

 

Esse argumento é resumido pelas famosas palavras de Gustave Flaubert, "Deus está nos detalhes". Olhando para a riqueza e os detalhes da natureza, é inequívoco concluir que é necessário que um Ser de grande sabedoria tenha arquitetado tudo aquilo. Esse pensamento é antigo. O apóstolo Paulo ensinou aos Romanos que pelas criações se conhece o criador. Isaac Newton e Sir  Arthur Eddington, ambos proeminentes cientistas ingleses fizeram afirmações semelhantes[5]. O grande astrônomo Carl Sagan pontuou, contudo, que "no meio de tal elegância e precisão, os detalhes da vida e do universo também apresentam falta de propósito, remendos e pouco planejamento. O que devemos concluir com isso? O universo seria um edifício abandonado precocemente por seu Arquiteto?"[6]. 


O fato é que assim como existem diversos detalhes no universo que parecem indicar sua origem divina, existem e quantidade igual diversos fatores que não apontam para isso. Por exemplo, o fato da maioria dos planetas de nossa galáxia  parecerem destituídos de vida ou do DNA possuir menos de 10%[7] de sua constituição ativa na realização de alguma tarefa biológica parece um despedício grosseiro para um programador consciente. O olho evoluiu mais de quarenta vezes desde que apareceu pela primeira vez em animais; ainda assim, possui problemas de simples correção, o que também não passaria despercebido por um Criador Inteligente. Independente das explicações para essas aparentes "faltas" de cuidado na natureza, fato é que não podemos usar a natureza como uma prova irrefutável para existência de Deus. Alguém que acredita em Deus pode ver a natureza como evidência da existência de Deus, enquanto que alguém que não acredita, pode ver a natureza como evidência contrária a existência de Deus. Assim, é um argumento que é melhor evitar.


Argumento Teleológico

 

Esse argumento tem certa similaridade com os anteriores, mas é importante considerá-lo a parte. Teleologia[8] é um método filosófico de se estudar certo fenômeno em termos de seu propósito maior ou objetivo final. Os defensores deste argumento apresentam que se as leis da natureza fossem levemente diferentes do que são atualmente, o universo e a vida como conhecemos não poderiam existir. Dada a enorme quantidade de possíveis configurações para o universo, o fato de que ele é exatamente como é (o que seria muito difícil de acontecer por mera probabilidade), evidencia a existência de um ser onisciente que as teria escolhido de tal forma. 

Esse argumento é talvez o mais convincente da lista, mas possui falhas como todos os outros. A própria noção de teleológica do mundo pode ser posta a teste. Não existem evidências conclusivas ou suficientes para se concluir que o universo tem qualquer intenção o propósito final. As falhas do pensamento teleológico foram colocadas a prova pela primeira vez pelo modelo evolutivo para origem das espécies, proposto por Darwin e Wallace. Thomas Henry Huxley, em sua obra "Darwiniana: A Origem das Espécies em Debate", apresenta de maneira clara como o desenvolvimento da vida na terra não possui qualquer propósito final. A teleologia também é confrontada pela teoria quântica, onde a natureza intrinsecamente probabilística e incerta não parece apresentar quaisquer intenções específicas. O universo como é parece (do ponto de vista meramente científico e factual), meramente um produto aleatório do desenvolvimento do mundo de acordo com as leis da natureza. Não parece haver intervenção divina.  

Considerando as limitações da teleologia, o argumento teleológico torna-se igualmente falível e limitado. Tais limitações tornam-se claras considerando a "analogia da poça", apresentada pelo escritor Douglas Adams[9]. Ele pede para que se imagine uma poça de água "acordando" certo dia e pensando que, já que o buraco em que ela se encontra parece ser perfeitamente ajustado para ela, o buraco parece ter sido feito para abrigá-la. Na verdade o que acontece é que o surgimento do buraco, por razões não necessariamente especiais, torna possível o surgimento de uma poça de água daquele tamanho e não que a existência da poça indica que o buraco foi criado especialmente para ela. Esse é o princípio antrópico: O universo existe com tais condições que é possível a existência de seres humanos - mas não existe quaisquer razões para acreditar que porque o ser humano existe, o universo foi criado para ele. Em outras palavras, é como se tentássemos desenhar um alvo ao redor de uma pedra caída no caminho e depois afirmássemos que quem jogou a pedra tinha o interessse de atingir aquele alvo. 


Conclusão

 

Os membros de A Igreja de Jesus Cristo são constantemente ensinados sobre a razão fundamental de sua crença: as experiências espirituais individuais que desenvolvemos a medida que buscamos um relacionamento pessoal com Deus. É claro que não há problema em procurar outras razões para crer em Deus. Mas é importante ter cautela ao afirmar determinado argumento como inequívoca prova da existência de Deus: um descrente pode usar a mesma evidência como prova de que Deus não existe. Acima, listei quatro dos argumentos usados para provar a existência de Deus que podem ser demonstrados como insuficientes ou falaciosos. Espero que uma consideração sincera deles ajude na melhoria de nossa argumentação apologética.


Referências

 

[1] Connor, James A. (2006). Pascal's wager : the man who played dice with God. San Francisco: HarperSanFrancisco. pp. 180–1.
[2] Drew McCoy, "What You Lose by Being Religious: An Atheist's Response to Pascal's Wager"
[3] Brian Greene, "Beyond Cosmos: Space" (2011)
[4] Stephen Hawking, "Uma Breve História do Tempo", 
[5] Romanos 1:20; Isaac Newton, "Escólio Geral" - Principia Mathematica, Vol. III; 
[6] Carl Sagan, "Heresy"(1980)
[7] https://www.theguardian.com/science/2014/jul/24/10-percent-human-dna-functional-genome-biological-baggage
[8] https://www.britannica.com/topic/teleology
[9] Douglas Adams, "The Puddle Argument";



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