A História da Mulher Pega em Adultério Realmente Aconteceu? | Intérprete Nefita

A História da Mulher Pega em Adultério Realmente Aconteceu?


Por Lukas Montenegro 03 de Abril de 2022
A História da Mulher Pega em Adultério Realmente Aconteceu?

PERGUNTA:

A história da mulher pega em adultério, registrada no livro de João, capítulo 8:1-11 estava presente originalmente no livro de João ou foi uma adição posterior por parte de algum escriba?

RESPOSTA:

De todas as passagens dos evangelhos, uma das talvez mais amadas e lembradas por cristãos ao redor do mundo é a passagem da mulher pega em adultério. É uma história de amor e perdão, onde o Salvador Jesus Cristo consegue conciliar misericórdia para com a mulher e justiça para com os requerimentos da lei de Moisés. Só tem um problema: o consenso da maioria dos eruditos do Novo Testamento é que esse momento jamais aconteceu. 

Como é de conhecimento da história e da antropologia, as histórias e ensinamentos da vida de Jesus foram transmitidas de maneira oral por cerca de trinta anos após sua morte, até que os evangelhos começassem a ser escritos [1]. Naquela época e nos primeiros séculos D.C. que seguiram, não havia uma metodologia padronizada de tradução e cópia desses manuscritos, e uma porcentagem pequena da população tinha conhecimento da escrita erudita. Alguém que possuia um manuscrito emprestava sua cópia para que outro pudesse fazer uma transcrição para si, que por sua vez era emprestada para que outra pessoa e assim sucessivamente.

É natural concluir que esse tipo de procedimento acarretaria em erros sendo carregados e aumentados ao longo do tempo. Além desses erros não intencionais, em diversas situações, copistas e escribas adicionaram intencionalmente passagens não-existentes no texto original, geralmente para dar mais força à lição de moral que se desejava transmitir (escrevendo-a como se Jesus ou um dos apóstolos tivesse dito). É o que parece ter ocorrido com a passagem da mulher adúltera [2].

O único lugar em que encontramos essa história  no Novo Testamento é em João 8:1-11. É importante relembrá-la:

"3 E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério;

4 E pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando.

5 E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?

6 Isso diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.

7 E como insistissem em perguntar-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.

8 E tornando a inclinar-se, escreveu na terra.

9 Porém, ouvindo eles isso, e acusados pela consciência, saíram um a um, começando pelos mais velhos até os últimos; ficaram só Jesus e a mulher, que estava no meio.

10 E endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?

11 E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais".

Deixando o grande ensinamento moral à parte, alguns elementos dessa história chamam atenção. Por exemplo, se os fariseus pegaram a mulher no próprio ato de adultério, por que somente a mulher foi trazida até Jesus, se a lei de Moisés determinava que ambos seriam punidos [3]? Qual o significado do comportamento inusitado de Jesus, em escrever na terra? Essas peculiaridades parecem ser de menor importância, e de fato o seriam, caso não tivessem levado à uma descoberta maior. A partir daqui utilizarei das palavras do Dr. Bart Ehrman, um dos maiores eruditos vivos no estudo crítico do Novo Testamento e professor da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill:

"Apesar do brilhantismo da história, de sua qualidade cativante e de sua intriga inerente, há um problema enorme posto por ela: não estava originalmente no Evangelho de João. Na verdade, ela originalmente não fazia parte de nenhum dos Evangelhos. Foi adicionada mais tarde pelos escribas. Como sabemos disso? De fato, os estudiosos que trabalham com a tradição de manuscritos não têm dúvidas sobre este caso em particular. Esse é um assunto extenso e aqui posso simplesmente apontar alguns fatos básicos que provaram ser convincentes para quase todos estudiosos de todas as persuasões: 


1. A história não é encontrada em nossos mais antigos e melhores manuscritos do Evangelho de João;
2. Seu estilo de escrita é muito diferente do que encontramos no resto de João (incluindo as histórias imediatamente antes e depois);
3. Ela inclui um grande número de palavras e frases que de outra forma são estranhas ao Evangelho.

A conclusão é inevitável: esta passagem não era originalmente parte do Evangelho".

Se a história não estava originalmente no livro de João, como acabou chegando lá? O Dr. Ehrman também responde:

"Como então veio a ser adicionada? Existem inúmeras teorias sobre isso. A maioria dos estudiosos pensa que esta era provavelmente uma história bem conhecida que circulava na tradição oral sobre Jesus, e que em algum momento foi adicionada na margem de um manuscrito. Dali, algum escriba ou outra pessoa deve ter pensado que a nota marginal na verdade fazia parte do texto e assim a inseriu imediatamente após o relato que termina em João 7:52. É digno de nota que outros escribas inseriram o relato em diferentes locais no Novo Testamento - alguns deles depois de João 21:25, por exemplo, e outros, curiosamente, depois de Lucas 21:38. De toda forma, não foi João que a escreveu" [4].

 

REFERÊNCIAS:

[1] Sobre o processo de escrita dos evangelhos do Novo Testamento, há um artigo aqui no site intitulado: "Quem Escreveu os Evangelhos do Novo Testamento?", disponível no link: https://www.interpretenefita.com/perguntas-e-respostas/quem-escreveu-os-evangelhos-do-novo-testamento/187/

[2] D. B. Wallace, "Contending with Christianity's Critics", pg. 154-155.

[3] Levíticos 20:10.

[4] B. EHRMAN, "Misquoting Jesus", primeira edição, pg. 63-65.



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